sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Pornolírico II – Verso Vaginal


Escorrego nas entrelinhas do teu corpo,
leio teu gozo em braille na coxa esquerda,
meus dedos escrevem crônicas em tua bunda,
minha língua recita o poema na tua vulva.

Tua buceta é um livro de páginas vivas,
onde cada gemido vira um refrão.
Teu clitóris, vírgula que me cativa,
interrompe o mundo com sua pontuação.

E eu, autor lascivo da tua carne aberta,
rasuro regras com a língua em alerta.
Não há gramática que impeça essa escrita:
minha estrofe termina entre tuas coxas inquietas.

Pornolírico I – Bucolismo Bucetal

 
Na relva de teu púbis, me deito ao lusco-fusco,
Teus pelos brilham como orvalho em grama úmida.
O canto do sabiá vira gemido brusco,
E a natureza goza em tua bunda arbórea.

Teu cheiro é de mato, suor e luxúria viva,
Teus lábios, os de cima, murmuram poesia.
Os de baixo, no entanto, clamam por saliva,
E eu venho, poeta, com minha língua enrijecida.

É manhã, mas quem desperta é o meu tesão,
Numa bucólica ereção de amor profano.
Vem, minha ninfa, tira essa camisola de algodão,
E rebola com convicção em uma tarde de verão.

Pornolírico Volume 0 - Trono Manchado de Sangue Pt. 2

 

O mundo é sujo, vivemos nas trincheiras
falo de outras sujeiras
aquelas que já nascem do ser humano
do que gosta do natural

Instintivo, meio primal
que reconhece pelo odor e pelo suor
a fêmea no auge carnal
por isso me identifico como animal

Sangue que escorre do corpo
difere do que escorre da guerra
é o mesmo que escorre da espada
Em movimentos no compasso do fôlego

Samurai? Guerreiro, talvez
que precisa se sujar
espada em punho, relações ao luar
suja o instrumento de tanto usar

Ela que veste a armadura protetora
Que segura o fluxo da batalha
Como maré vermelha que nunca cessa
E o ciclo inevitável retorna

Nunca desistir da luta
Nem deixar para depois
Como guerreiro há de honrar a palavra
Akira Kurosawa
Trono Manchado de Sangue — parte dois

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Suicide Note Pt. XI (Última Linha de um Corpo Cansado)


A depressão criou raízes no fundo do peito.
Sei que não tem jeito, o mundo não é perfeito.
Deitado em meu leito, remédios já não fazem o mesmo efeito;
escuridão tem meu apreço, para a morte eu aceno.

Para aqueles que duvidaram, hoje eu só lamento.
A depressão é um monstro que me devora por dentro;
nem sei por que tento, já tenho a resposta há um tempo,
apenas prolongando o inevitável fracasso que eu entendo.

Cada dia é uma batalha que não quero lutar;
a energia que tenho é insuficiente para levantar.
Não há consolo, não há alívio;
nos cortes, onde encontro o meu último respiro.

A mente está sempre em conflito,
perguntando se ainda há sentido nisso.
Entre prolongar a dor ou pôr um fim,
preso no meu próprio labirinto.

Não vejo sentido em acordar amanhã;
as obrigações são pesos que não consigo carregar.
Os dias sempre passam muito devagar,
como se esperassem que eu desistisse de esperar.

O futuro é uma página rasgada;
o passado é uma ferida aberta;
o presente é este quarto escuro,
meu último ato é o ponto final.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Jornada de quem não deveria estar aqui


A Jornada...
de quem não deveria estar aqui

Um campo de guerra que não tinha porquê existir.
Era soco, fumaça, e até bebida alcoólica eu tive que ingerir.
Eram remédios e som alto toda noite.
Ao invés de dar chutes, ficava no meu canto, em sua barriga, esperando o açoite.
E eu, tentando sobreviver dentro da minha própria mãe
logo ela, que deveria ser o meu primeiro escudo, 
mas virou meu primeiro mundo inseguro.

Algo pior aconteceu:
senti minha área de proteção ser invadida e alguém sussurrar baixinho:

"Não consegui impedir, e seu filho nasceu..."

A liberdade finalmente chegou, mas não a alegria.
Nove meses de maus-tratos, e depois, mais melancolia.
O lugar era escuro, como um túnel sem fim.
Me sentia um lixo jogado no esgoto,
depois de descobrir que tentaram um aborto.

Aquele dia foi a primeira vez que eu chorei,
E de lá pra cá, nunca mais parei.
Agora choro com mais vontade e convicção,
sabendo que eu fui fruto de uma indevida gestação.

Ela tentava de manhã, desistia à tarde, me largava à noite.
Eu escutava e via muita coisa absurda.
Minha querida até tentava, mas me jogava de mão em mão.
Fingia que cuidava de mim e, depois, ia pro baile rebolar a bunda.
Passava na mão de todos; acho que foi por essas mãos que eu nasci.

Ela com os olhos vermelhos de droga,
eu com os olhos vermelhos de choro,
esperando um abraço que nunca vem.
Enquanto ela se afunda, eu me perco também.

Aprendi tudo sozinho; não tive nenhum amparo.
Em processo de libertação e aceitação de não ser mais um produto usado.
Nesse mundo novo eu não estava nenhum pouco satisfeito,
mas já sabia que só a minha mãe não era boa mesmo.
Não era nem mais sobre ela, mas sim sobre quem eu sou,
lutando pra me encontrar num mundo de dor.

O tempo passou e, antes da escola, vi no jornal:

"Mulher morta em baile funk, violência brutal"
"Mulher é morta em baile funk e comove capital"
"Ela estaria envolvida com pessoas de facção rival"
"Ela deixa um filho de 7 anos de idade" 

E um sorriso em meu rosto, por saber que serei livre de verdade.

Libertação é um peso que pesa, mas alivia.
A dor não some, mas a vida me ensina a evoluir.
Não escolhi meu caminho, por mais difícil que fosse,
mas o passado não me define, só me fortalece.

"Mulher morta em baile funk deixa um filho pra trás..."
E o ciclo da vida continua a se reescrever.

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Suicide Note Pt. X (Pós-crédito de uma vida)


Já morri tantas vezes por dentro
que o corpo apenas seguiu o roteiro.
Fingi viver em jantares, encontros familiares,
em sorrisos que doíam mais que a própria verdade.

O túmulo não é a cova,
é o quarto com a luz apagada,
o som do letreiro em um filme ecoando,
e a resposta sempre velada.

Escrevo agora como quem
já tentou ser protagonista
e agora escreve a lápide da própria alma:
aqui jaz alguém que tentou —
mas o mundo era um espelho que se rachou.

O tempo sangra, bem mais que uma cena.
As palavras são pregos na madeira,
e a vida… apenas uma cerimônia
onde o morto levanta e vai embora antes do fim.

Não me vistam de branco,
não cantem hinos de paz.
Minha participação foi silenciosa.
Quando eu mais precisava, ninguém estava
para ouvir o último disparo.

terça-feira, 24 de junho de 2025

Nadando contra a correnteza

 

Me ajude a sair desse problema
Eu não consigo mais dar um passo à frente
Pergunta como eu me sinto, para ter certeza
Estou nadando contra a correnteza

Me ajude a sair disso
Sei que não consigo
É quase um ofício, então eu suplico
Por fora eu omito, mas por dentro sei como me sinto
É exaustivo, doloroso ver lá fora pessoas sorrindo
E aqui, dentro, pensando em acabar com tudo isso

Parece que foi ontem, ouvi meu nome
Deitado na cama, em sonhos, chorei um monte
A tristeza não esconde, mas me consome

Me ajude a sair desse problema
Eu não consigo mais dar um passo à frente
Pergunta como eu me sinto, para ter certeza
Estou nadando contra a correnteza

Tentei fingir, tentei mudar
Mas sempre algo volta para assombrar
Fantasmas do passado, família desestruturada
Relacionamentos falhos e a autoestima abalada

Me ajude a sair desse problema
Eu não consigo mais dar um passo à frente
Pergunta como eu me sinto, para ter certeza
Estou nadando contra a correnteza
Que, ano após ano, só aumenta a minha tristeza
A indiferença do mundo com quem precisa ser ouvido
Para os olhos ficarem coloridos, basta um ombro amigo

Eu via o mundo com confiança, achando que algo ia mudar
A confiança nas pessoas em quem eu acreditava, que só querem te apunhalar
Um mundo sem esperança é um lugar em que não quero ficar
Com uma bala na cabeça, serei livre para ir onde deveria estar.

Me ajude a sair desse problema
Eu não consigo mais dar um passo à frente
Pergunta como eu me sinto, para ter certeza
Estou nadando contra a correnteza